sábado, 25 de fevereiro de 2017

Recomeço.


Eu encontrei um sorriso rabiscado em uma folha de A4, colada feito lamb, no muro que um dia serviu como proteção à alma. Retirei, com cautela, tudo que ele um dia significou. Lembrei que nem a morte aguenta a dor de quem ama. Amar não mata. Não ter é a folga e a limpeza pro que há de vir. Hoje, desprotegida, escondida das bandinhas de carnaval com seus brincantes e suas serpentinas, minha alma se curvou e chorou. Houve falta, medo – pequenos riscos perto da esperança que se fundiu ao apelo de felicidade. A luz rompeu o obscuro medo e desenhou, com sombras, a seta certeira de Oxossi que apontava sempre para a neblina logo à frente. Nada vi. Choveu olhos abaixo. A água banhou e enlameou o corpo inteiro, enquanto o vento do antigo poeta soprou em meus ouvidos. Os dedos, soldados fiéis, respiraram vagarosamente e despertaram o sono hibernal da poesia. É o recomeço. Quem sente medo de atravessar a neblina dos artistas e dos loucos, estagna na dor. De repente, tranquilamente, o céu caiu furado por baixo: buraco de faca de amante ferido. Fiz da nuvem mais densa meu tapete voador! 

Ar!

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Minha Capitu.



“Mãe, olha o limão nos meus olhos que eu quero ver.”
(Bandeira Tribuzi)

Tinha tudo pra ser bobagem inventada por corações cansados. Não. Seria impossível. Não eram apenas dois corações cansados, eram olhos que se liam e, dentro de tudo que era sujo e condenado, com o punhado de pedras que nos arremessaram, começamos a erguer o forte castelo que dá proteção às nossas maiores – e também menores – vontades.
Hoje somos mais. Somos mais fortes, limpamos tudo e fechamos as portas para aproveitarmos as poesias retidas dentro de nós mesmas.
Por aqui, o que se respira é limpo e tem a beleza de um girassol que nasceu dentro de um poço – fundo – de tristezas. Por aqui, perdemos o ocaso dentro de um beijo, enquanto golfinhos enfeitavam e davam vida a um velho mar cinzento.
Superamos as feridas físicas, os pontapés e os socos, e transformamos – todos os dias – companheirismo em amor. Eu sei, sabemos, as maiores verdades estão escritas no maior portal da alma: os teus olhos verdes.
Que assim seja: que os sorrisos dos teus olhos, Capitu de nossa própria criação, ao amanhecer, iluminem, iluminem e iluminem todos nossos caminhos e direções, apesar de tudo, apesar de todos, apesar do mundo...

Sob aplausos da ilusão


Sob aplausos da agonia e do álcool, a minha dor deu espetáculo!

No final da noite, o samba desafinou, a bateria atravessou, as notas foram as mesmas do carnaval passado e a minha escola continuará no segundo grupo, como sempre esteve.
Não era pessimismo não, era realidade doída de carnavalesco e, se aos outros não cabe a verdade, vou deixar o posto e ser, do meu bloco, um simples folião.
Nas ruas do meu carnaval, enquanto o álcool me toma as melhores horas da noite, te encontrarei, quem sabe, feliz nos braços de um Arlequim. O carnaval terá valido a pena e a ÚNICA lágrima que me cabe, rolará pelo rosto como o meu maior refrigério.


“Agora eu sei, desfilei sob aplausos da ilusão!”

terça-feira, 12 de abril de 2016

Ontem


Fica sempre uma saudade velada de um abraço, um cheiro, um ontem. Fica também o medo da perda. Medo do amanhã que ainda não veio. Mas, paradoxalmente, desejado: que venha e traga a fé no sentir do outro, que traga dias limpos e lindos. Que leve o medo que arrasta consigo a beleza das cores que iluminam os melhores dias.
Fica a certeza do amor que emana todos os dias de um coração que era desenganado, mas que se traduziu no maior amor que poderia sustentar. Fica uma necessidade de receber, todos os dias, o eu te amo que tira os pés do chão e transforma as incertezas em pedaços de felicidade.

Desligar


Desligar é como romper, quebrar; é estar sozinho depois de em completa companhia. Desligar, às vezes, é desumano. Desligar é se ver só querendo estar junto, é ver que o tempo acabou e, olha, Amor não cabe em sessões, amor não cabe em ter tempo determinado, em conferir minutos. 
Chorar de emoção diante de mágoas antigas, senhores, é sinal de amadurecimento e não de desequilíbrio. Querer junto, depois de tantas e tantos, vários e porquês, é sinal de coragem. 

Desligar é, nesse caso, acordar de um sonho.

domingo, 6 de abril de 2014

Eu-lírio.

Nenhuma poesia em mim viverá, a não ser aquela permitida por meu eu-lírio.
E no sonho mais cheio de sentido, o corpo poético é rascunhagem geral.
Improvisada pela inconsciência pra dizer que os amores, os outros, setinhas falsas de felicidade, são nada comparado a essa morte anunciada, com começo, meio e fim.
Tragédia grega de dramalhão. Dramalhado.
Amor de flor teimosa que dorme como o sono das revoluções que vivem em nós.
Como vulcão em ponto de erupção. Como o último pôr-do-sol: laranja, lagrimado, programa de família, cachorro,
etc e tal.
Nós, dando Adeus à poesia, fantasiando um amor sem pé-nem-cabeça, como quem faz o concreto pela primeira vez. Sem saber onde mexer primeiro.
E vivemos. E morremos. E crescemos antes da hora.
Não no amor, mas no perdão sem necessidade, a liberdade de ser o que a gente quiser ser e ser metafórico. Bicho solto - tem que ser.

Memória, não aceite o suborno de quem não sabe que a dor passada se tornará a melhor lembrança do futuro.
Peça, antes de mais nada, que as máscaras caiam.
Chega de carnaval fora de época, coração!