sábado, 31 de outubro de 2009

"Posso entrar, Sr. Coelho?"

O coelho, sempre muito apressado, tinha achado que aquela garotinha, muito educada e cheia de boas intenções, seria grande demais para entrar em sua pequena casinha, já bem cheia de coisas e, sem poder acreditar, viu a garota comer um biscoito mágico e ficar pequena a ponto de conseguir adentrar, tranquilamente, em sua toca.
Alice entrou em cada cômodo, observou cada coisa que o coelho apressado guardava em casa, acabou encontrando uma cesta de biscoitos e, sem se conter, mordeu um dos que estavam por ali dando sopa. O coelho até tinha avisado: “Eles farão você ficar grande!”.
Ela ganhou proporção tão grande, tão grande, que os braços e pernas saíram pelas janelas e portas da pequena casinha.
"Você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia; no máximo uma roseira. É, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim: avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento, essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas e, pouco a pouco, derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente."
A Alice cresceu tanto, o coelho tão apressado esqueceu-se de dar a atenção necessária à garota, que ela acabou chutando-o escada abaixo. Tudo por conta do tamanho que ela ficou e espaço que ela ocupou! Ele lembrou-se: “Rápido, coma uma cenoura da tigela de legumes. Ela vai fazer você diminuir de tamanho.” Assim que ela deu a primeira mordida, voltou a ser pequenina.

"Sentada, com os olhos fechados, quase acreditou estar ela mesma no País das Maravilhas, mesmo sabendo que quando abrisse os olhos novamente tudo voltaria a ser a chata realidade de sempre..."

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O vestido.

Por onde andaria aquele vestido? Enfeitiçaria outros ventos, outros olhares?
Não, contaram-lhe que o vestido estava rasgado, largado em um canto em um armário qualquer.

- O que falta ao vestido?
- Tem um buraco onde antes havia um botão.

O vestido é o mesmo, continua bonito, mas não tem vida. A vida por dentro do vestido se perdeu também? E o botão, ainda pode ser costurado?
Ela não entendia porque não costuravam o tal vestido vermelho e porque a vida não o vestia de novo.
Nós éramos como ele? Fez sentido, virou passado largado no armário e sem botão.
Sentimentos rasgam? Por onde andam os nossos botões?

Eu tenho agulha e linha...

Podemos nos costurar?

Silêncio...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Vinte e sete.

Aquela moça na parada, às 7h da manhã, não tinha cor de quem acordara pronta pra pegar um ônibus em pleno dia vinte e sete. Ela estava ali, parada, esperando que o motorista do ônibus tivesse um bom dia manso para dar. Todos os dias ela esperava um bom dia como do motorista do ônibus ou aqueles que chegavam para ela todos os dias através de mensagens no celular. E esperava ver, pela janela, um velho arco-íris que não vinha faz tempo.
Era quase um mês! Eram as coisas que não aconteciam que a assustavam. E o dia tinha cara de não-dia, de noite que não amanheceu.
O cigarro queimava entre os dedos dela. Era o vento fumando para acalmar a vontade de virar furacão.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

As mesmas cores.

Seguindo a correnteza de outro rio...


...são outros peixes, outras pedras, outra vara, outra linha, outra isca, outras necessidades, outras botas, outra roupa, outro humor. Mas por trás disso tudo, ainda vive o mesmo pescador.


Em um ocaso diferente, ainda é o mesmo laranja que queima.

domingo, 21 de junho de 2009

Somos nós.

Eram dois olhos que pediam amor. Eram dois corpos cansados. Era o final de um ciclo, início de outro. Eram textos inspirados de paixão.
É o começo do todo. É o amor que pediu passagem. É o presente. É a doação. É o farelo de pizza, de misto-quente. É a massagem no rosto. É o ideal de futuro. É a dor de dente. É o medo. É a insegurança. É a briga chata. É a reconciliação (...) É o coração acelerado ao rever. É a inspiração de amor.
Não era quase amor. Não eram quaisquer corpos. Não era efêmero. Somos nós!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Impressões.

Era só isso: bastava caminhar. Ruas escuras, becos sujos, sombrios; casas altas, onde viviam famílias antes nobres. Por aqui, por onde a gente caminha sem olhar pra trás, o rio não passa, o tempo corre lentamente. A chuva queimou boa parte das lâmpadas que deixavam os andarilhos com tons alaranjados. E nas esquinas, travessas e encruzilhadas, encontramos a música nos passos de quem vai. É tudo doce, até a água que a chuva manda e cai bem lentamente, escorrendo pela pele como o suor desperdiçado todos os dias com coisas nulas.
São dias leves, novos; dias de sorrir.