quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Adeus você!


Quando aquela cor desapareceu, os espelhos que a refletiam em sua alma transformaram-se em cacos. Os passos já não deixavam marcas, tornaram-se neutros e a lua era a mesma, todos os dias, em um tempo vagaroso. E o vento? A pele, antes seda, enrijeceu e tornou-se insensível. Os olhos perderam o encanto e o brilho em uma confusão imperecível.

domingo, 14 de outubro de 2007

Pro nada.


Você consegue perceber as proporções do que você causou? Você consegue olhar para trás e perceber a bagunça que você deixou aqui?
Não, você não consegue porque você sequer olha pra trás. Às vezes é necessário refazer o caminho, talvez algo tenha caído do seu bolso e você nem tenha notado.
Não, você não precisa olhar pra trás porque você ignora o passado, não sabe que é com ele que construirá o seu futuro.
Olha ao redor, vê alguma coisa? Sente o ar pesado e os pêlos respondendo ao calor da tua voz? Não, você não vê, você não percebe, você nem notou a minha ausência, você é sempre quem comanda a situação.
Sabe o que acontece? Você precisa arrumar os óculos – ou trocá-los – porque eles não te servem mais. A tua hipermetropia me irrita!
Você sabe quanto tempo isso ficou guardado? Ou pouco importa? É, sempre esse mesmo descaso com o sentir alheio. Você não percebe mesmo e essa sua indiferença me tornou obtuso.
O buraco que você causou está sendo tapado, aos poucos, com o que restou de concreto aqui dentro. E saiba de uma coisa, você foi imprescindível ao meu crescimento. É, você não foi de todo ruim, muito embora pareça. Você me fez crescer, ainda que por sofrimento. Você saiu e deixou o peso todo sobre mim, a bagunça que eu vou ter que arrumar – mais uma vez – sozinha.
Sabe aquele disco? Furou de tanto que ouvi esperando que você voltasse. Ora, sem surpresas, você não voltou! E eu continuei aqui, esperando...
Mas saiba que hoje, apesar de carregar uma ferida escancarada, eu consegui, consegui segurar o teu veneno antes que ele me consumisse. Hoje eu sou imune aos teus perigos; hoje eu não preciso mais do teu abraço pra chorar e nem das tuas mãos pra me levantar, caso eu caia. Hoje eu sou um alguém melhor que até consegue sorrir.
E você - que carrega tantas mentiras, que não sabe o valor de sentir - quem é?
Você veio do nada, conquistou tudo, foi embora do nada e vai voltar exatamente de onde você veio: pro nada!

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Algumas coisas nunca mudam!



Algumas coisas nunca mudam: o cheiro que ficou nunca vai mudar! Toda vez que o perfume for sentido, dentre uma multidão de cheiros, ele vai ser facilmente reconhecido.
Um dia aquele sentimento vai morrer, ou adormecer, mas as estrelas presenciaram as lágrimas e os sorrisos e serão eternas testemunhas do que existiu; como o casal que num final de tarde, em um lugar qualquer, cravou nomes em uma árvore e essa ferida vai permanecer nela por muito tempo, ainda que o sentimento tenha se despedaçado. Um dia alguém vai passar por ali e, com os dedos, sentirá a intensidade do que foi vivido. E nada terá sido em vão, mesmo que, de imediato, não se dê conta: algumas coisas nunca mudam!

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Narrador


Ela acordou tarde, como muito tem acontecido, sob vozes e ordens. Ninguém quer mais vê-la funcionar tão dispersamente.
Levantou-se ainda tonta e um pouco desacordada, irritada por não ter acordado por seu relógio biológico, sem motivos pra levantar, a não ser por já passar das três da tarde. Olhou-se no espelho, pôde ver-se descabelada, com a maquiagem borrada; a cabeça, pulsantemente, dolorida, denunciando a noite anterior.
Por tanto tempo isso tem se repetido: as coisas, antes banais, ganharam horas cronológicas para acontecerem e têm tomado grande parte do seu tempo.
Ela tem andado pouco, se movimentado pouco e se tornado uma pessoa, discretamente, monótona - muito embora demonstre o contrário.
Os amigos que antes completavam-lhe o tempo com conversas aprazíveis, até mesmo eles, parecem distantes, apesar de próximos.
A sua cabeça não é mais a mesma, as opiniões têm mudado bastante.
Aquele ser que antes era o seu motivo de conexão, hoje não faz mais o seu coração bater aceleradamente.
O passatempo na varanda tem se tornado obrigação; as ruas, ladeiras e becos, paisagens inevitáveis. O violão, onde dedilha dissonantes melodias, tornou-se seu inseparável companheiro.
Ela liga o rádio esperando ouvir algo de agradável, porém se depara com a música que tenta evitar, a melodia que ensurdece-lhe; aquela que já criou vida própria aos seus ouvidos.
A esta altura só sobram folhas de papel e uma caneta, onde ela se desmancha em versos, onde derrama seus sentimentos e que ela, somente ela, lê e entende.
Por mais que ela tente, por mais que o seu o maior motivo tenha morrido, ainda não consegue se achar. Mas tenta. Assim vai ficando enquanto não encontra seu porquê.
E o que eu queria mesmo era que tudo estivesse, realmente, em terceira pessoa, porque o bom da vida é ser narrador, ser simples personagem, às vezes, torna-se chato. Ah, e ser narrador onisciente, claro!

"(...) Meninas são bruxas e fadas, palhaço é um homem todo pintado de piadas! Céu azul é o telhado do mundo inteiro, sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro! Velhinhos são crianças nascidas faz tempo! Com água e farinha eu colo figurinha e foto em documento! Escola é onde a gente aprende palavrão... Tambor no meu peito faz o batuque do meu coração! (...)"