quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Narrador


Ela acordou tarde, como muito tem acontecido, sob vozes e ordens. Ninguém quer mais vê-la funcionar tão dispersamente.
Levantou-se ainda tonta e um pouco desacordada, irritada por não ter acordado por seu relógio biológico, sem motivos pra levantar, a não ser por já passar das três da tarde. Olhou-se no espelho, pôde ver-se descabelada, com a maquiagem borrada; a cabeça, pulsantemente, dolorida, denunciando a noite anterior.
Por tanto tempo isso tem se repetido: as coisas, antes banais, ganharam horas cronológicas para acontecerem e têm tomado grande parte do seu tempo.
Ela tem andado pouco, se movimentado pouco e se tornado uma pessoa, discretamente, monótona - muito embora demonstre o contrário.
Os amigos que antes completavam-lhe o tempo com conversas aprazíveis, até mesmo eles, parecem distantes, apesar de próximos.
A sua cabeça não é mais a mesma, as opiniões têm mudado bastante.
Aquele ser que antes era o seu motivo de conexão, hoje não faz mais o seu coração bater aceleradamente.
O passatempo na varanda tem se tornado obrigação; as ruas, ladeiras e becos, paisagens inevitáveis. O violão, onde dedilha dissonantes melodias, tornou-se seu inseparável companheiro.
Ela liga o rádio esperando ouvir algo de agradável, porém se depara com a música que tenta evitar, a melodia que ensurdece-lhe; aquela que já criou vida própria aos seus ouvidos.
A esta altura só sobram folhas de papel e uma caneta, onde ela se desmancha em versos, onde derrama seus sentimentos e que ela, somente ela, lê e entende.
Por mais que ela tente, por mais que o seu o maior motivo tenha morrido, ainda não consegue se achar. Mas tenta. Assim vai ficando enquanto não encontra seu porquê.
E o que eu queria mesmo era que tudo estivesse, realmente, em terceira pessoa, porque o bom da vida é ser narrador, ser simples personagem, às vezes, torna-se chato. Ah, e ser narrador onisciente, claro!

"(...) Meninas são bruxas e fadas, palhaço é um homem todo pintado de piadas! Céu azul é o telhado do mundo inteiro, sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro! Velhinhos são crianças nascidas faz tempo! Com água e farinha eu colo figurinha e foto em documento! Escola é onde a gente aprende palavrão... Tambor no meu peito faz o batuque do meu coração! (...)"