domingo, 14 de outubro de 2007

Pro nada.


Você consegue perceber as proporções do que você causou? Você consegue olhar para trás e perceber a bagunça que você deixou aqui?
Não, você não consegue porque você sequer olha pra trás. Às vezes é necessário refazer o caminho, talvez algo tenha caído do seu bolso e você nem tenha notado.
Não, você não precisa olhar pra trás porque você ignora o passado, não sabe que é com ele que construirá o seu futuro.
Olha ao redor, vê alguma coisa? Sente o ar pesado e os pêlos respondendo ao calor da tua voz? Não, você não vê, você não percebe, você nem notou a minha ausência, você é sempre quem comanda a situação.
Sabe o que acontece? Você precisa arrumar os óculos – ou trocá-los – porque eles não te servem mais. A tua hipermetropia me irrita!
Você sabe quanto tempo isso ficou guardado? Ou pouco importa? É, sempre esse mesmo descaso com o sentir alheio. Você não percebe mesmo e essa sua indiferença me tornou obtuso.
O buraco que você causou está sendo tapado, aos poucos, com o que restou de concreto aqui dentro. E saiba de uma coisa, você foi imprescindível ao meu crescimento. É, você não foi de todo ruim, muito embora pareça. Você me fez crescer, ainda que por sofrimento. Você saiu e deixou o peso todo sobre mim, a bagunça que eu vou ter que arrumar – mais uma vez – sozinha.
Sabe aquele disco? Furou de tanto que ouvi esperando que você voltasse. Ora, sem surpresas, você não voltou! E eu continuei aqui, esperando...
Mas saiba que hoje, apesar de carregar uma ferida escancarada, eu consegui, consegui segurar o teu veneno antes que ele me consumisse. Hoje eu sou imune aos teus perigos; hoje eu não preciso mais do teu abraço pra chorar e nem das tuas mãos pra me levantar, caso eu caia. Hoje eu sou um alguém melhor que até consegue sorrir.
E você - que carrega tantas mentiras, que não sabe o valor de sentir - quem é?
Você veio do nada, conquistou tudo, foi embora do nada e vai voltar exatamente de onde você veio: pro nada!