domingo, 30 de março de 2008

A última dor, os últimos versos.


O circo foi montado, os palhaços escalados e logo a palhaçada transformou-se em dor. Tocaram fogo no circo com todo mundo dentro, o espetáculo sórdido ficou por sua conta, mas acabou: o palhaço principal acaba de pedir demissão!
Tudo aconteceu, mas o mundo continua girando, o sol nascendo e se pondo; o que resta precisa evoluir. Aquela parte que foi, não voltou. Foi tudo culpa daquela ventania que desenterrou o que não precisava vir à tona.
Alguém caiu e se machucou, tudo bem que a queda não foi tão alta; mas não importa a altura, a queda aconteceu e deixou marcas.
Você conseguiu! Pegou a caneta e reescreveu a história a seu modo: pintou, rabiscou e rasgou antes que o fim chegasse.
Você agora é apenas imagens gravadas na memória... que será deletada!


Posso escrever os versos mais tristes esta noite

“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis, e às vezes ela também me quis...
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.

A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la meu olhar a procura.

Meu coração a procura, e ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.

Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.

Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.

É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.”


Pablo Neruda