quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Cadê a poesia, Poeta?


O poeta era leve e obscuro, tal qual a folha.

O poeta não sentiu as cores, não viu a flor, não sentiu o vento; desfez os rumos.
O poeta perdeu o rumo.
O choro contorna a porta, não entra, mas a vontade também não foge. Tudo passa longe. O fogo SÓ(mente) ilumina. A página rasgada, já amarelada, continua lá, esperando ser preenchida. O poeta perdeu o chão porque nem os sentidos faziam sentido. As lembranças não passam de escuro.
Como última esperança, o poeta procura o pote de ouro no fim do arco-íris. Inútil?
O poeta esqueceu os dias, as horas e os amores.
O poeta ficou vazio, torto, com os pés no chão e a cabeça no nada.
O poeta esqueceu as notas, as melodias. O poeta calou o violão. O poeta cantou o tempo e a noite; jogou as últimas composições fora.
O poeta esqueceu o medo, no ímpeto de mudar. O poeta aprendeu que para mudar não basta querer, aliás, o poeta ainda não aprendeu a mudar. Alguém sabe como começar? Lembrem-se: Querer não basta.
O poeta ignorou a mente, quis os fatos. O poeta esqueceu os mantras. Pena! O poeta jogou fora a pena.
O poeta reclamou o peso de bobagens, mas não se negou a carregá-lo.
É a hora do adverso, Poeta.

O poeta aprendeu que não deve escrever por inspiração.
As palavras se encontram internamente e o forçam a escrever seja lá o que for – conta ele.

O momento trouxe asas e voou sozinho, em um céu sem estrelas, mas com uma lua linda que, pura, era a própria estrela de tudo. Foi quando o poeta sorriu.

Ah, se encontrarem por aí a pena do Poeta, devolvam-na.

O Poeta agradece.

6 comentários:

[The stone age_Talita Cavalcante] disse...

Ao Poeta, ao encanto triste do Poeta.

Caro e ilustre Poeta, não só nas cores estão as maiores provas da alegria pressuposta. Ou não teriam beleza poética as folhas secas ao vento, soltas, leves na estação apropriada?
Viveriam tristes, mortas, esperando a estação seguinte?

Mas são tuas palavras, Poeta, que nutrem de vida até mesmo o que julgas inanimado.
E ao te ver falar, percebe-se que o violão não calou a voz. És a música pronta pra que reproduzas.
Serias tu Poeta-violão?

Eu continuo aqui, a admirar tuas estações. Todas elas...

[A change of seasons!]


E aos maisqueencantos de Camila, um sutil eu te amo.
P.S.: Muito.

Calli.Strange; disse...

As palavras realmente estao em nosso interior,num intimo,guardadas pra no momento certo serem colocadas pra fora!
Lindo post Mila! :)

Dy disse...

Eis a réplica...
Acho mesmo que o poeta nunca teve rumos, o poeta é levado pelo acaso, e por acaso ele vê as cores, sente a flor, ou se perde no vento. E quando se está perdido, quem precisa de rumos?
E no escuro das lembranças o poeta também quer se perder, para perder a vontade, para perder o querer. E que a página rasgada, seja apenas a página rasgada, e que ela não espere ou precise ser preenchida, porque agora é exatamente assim que o poeta se sente. O poeta sente que precisa ser preenchido, como uma folha de papel, mas ele lembra que é poeta, não uma página em branco.
E no escuro, o poeta tentou sonhar. E em sonho ele viu as palavras distantes, a poesia que não virou melodia e a canção que não mais arranhou a velha vitrola. E o grito que o despertou, soou como uma velha canção, como doce voz, como as palavra que não, ele não procurava, mas que procuravam por ele. Então ele abriu os olhos, escuro?

Dy disse...

Não, os teimosos raios de sol insistiam em querer entrar no escuro do velho quarto fechado. E foi ao desperta também, que o poeta se deu conta de que ainda é poeta. E fosse em sonho, fosse despertando, estava tudo ali: lembranças, inspiração, poema, palavras. Mudar? É talvez o poeta queira de fato mudar, mas será que ele sabe querer? E sabendo querer, será para que ele quer mudar? Mudar e sair da letargia para voltar a ser o que era outrora, ou mudar e olhar no espelho e não se reconhecer, olhar para si mesmo como se olhasse para o desconhecido. Verdade, às vezes o desconhecido nos parece simpático e atraente.
E o velho poeta, das palavras gastas, das canções repetidas, encontra o poeta desconhecido: o dos segredos, do meio sorriso, dos falsos amores. E os dois se perguntam ao mesmo tempo: o que procura? O velho poeta procura uma pena, procura a palavra presa pelo nó da garganta, o suspiro que se perdeu na noite vazia. E o poeta desconhecido se reconhece naquele outro, mas levanta do quarto escuro e diz: eu já achei, eu me achei, e que venham os novos rumo, e que venha luz, a sensação antiga e efêmera de completude. E que venham as palavras, venham afinal e mostrem ao mundo quem somo, ou melhor, quem estamos sendo. E quem precisa de pena, quando se tem carvão?

Dy disse...

Obrigada Camila, por esses momentos de reconciliação com as palavras...

Netto disse...

acredito que nao seja a inspiração, mais sim o momento!

bjos mila