quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O vestido.

Por onde andaria aquele vestido? Enfeitiçaria outros ventos, outros olhares?
Não, contaram-lhe que o vestido estava rasgado, largado em um canto em um armário qualquer.

- O que falta ao vestido?
- Tem um buraco onde antes havia um botão.

O vestido é o mesmo, continua bonito, mas não tem vida. A vida por dentro do vestido se perdeu também? E o botão, ainda pode ser costurado?
Ela não entendia porque não costuravam o tal vestido vermelho e porque a vida não o vestia de novo.
Nós éramos como ele? Fez sentido, virou passado largado no armário e sem botão.
Sentimentos rasgam? Por onde andam os nossos botões?

Eu tenho agulha e linha...

Podemos nos costurar?

Silêncio...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Vinte e sete.

Aquela moça na parada, às 7h da manhã, não tinha cor de quem acordara pronta pra pegar um ônibus em pleno dia vinte e sete. Ela estava ali, parada, esperando que o motorista do ônibus tivesse um bom dia manso para dar. Todos os dias ela esperava um bom dia como do motorista do ônibus ou aqueles que chegavam para ela todos os dias através de mensagens no celular. E esperava ver, pela janela, um velho arco-íris que não vinha faz tempo.
Era quase um mês! Eram as coisas que não aconteciam que a assustavam. E o dia tinha cara de não-dia, de noite que não amanheceu.
O cigarro queimava entre os dedos dela. Era o vento fumando para acalmar a vontade de virar furacão.

domingo, 21 de junho de 2009

Somos nós.

Eram dois olhos que pediam amor. Eram dois corpos cansados. Era o final de um ciclo, início de outro. Eram textos inspirados de paixão.
É o começo do todo. É o amor que pediu passagem. É o presente. É a doação. É o farelo de pizza, de misto-quente. É a massagem no rosto. É o ideal de futuro. É a dor de dente. É o medo. É a insegurança. É a briga chata. É a reconciliação (...) É o coração acelerado ao rever. É a inspiração de amor.
Não era quase amor. Não eram quaisquer corpos. Não era efêmero. Somos nós!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Impressões.


Era só isso: bastava caminhar. Ruas escuras, becos sujos, sombrios; casas altas, onde viviam famílias antes nobres. Por aqui, por onde a gente caminha sem olhar pra trás, o rio não passa, o tempo corre lentamente. A chuva queimou boa parte das lâmpadas que deixavam os andarilhos com tons alaranjados. E nas esquinas, travessas e encruzilhadas, encontramos a música nos passos de quem vai. É tudo doce, até a água que a chuva manda e cai bem lentamente, escorrendo pela pele como o suor desperdiçado todos os dias com coisas nulas.
São dias leves, novos; dias de sorrir.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Divagações de um desenhista.



Brilho de antes, fogueira que consome o eterno. Esplêndidos trechos de um testamento de nada. Fagulhas desesperadas de uma vontade plangente. Entre o ranger e o sorriso, o espetáculo de uma boca límpida, esculpida em êxtase extremo. De cabelos negros, cor-de-turmalina, de risco em risco um segredo mortal. Na ponta de um lápis, no rabiscar de poucas linhas, uma imagem acalenta, suplanta e redime toda a dor de uma alma marcada. O dono do lápis, em transe, pára diante da beleza. Levanta, abandona o lápis, abandona a inspiração. Entre um apagar e outro, desenha memórias e não fotografia. Dispensa detalhes, fecha os olhos e imagina as marcas que delimitam a boca, as sombras de um rosto expressivo.
A cor morena que abarca a pele que seus dedos tocaram e por onde os seus olhos puderam passear. Olhar a foto é sentir o cheiro do perfume que ficou, é sentir os pêlos de um corpo com poucos deles.
Desenhar os traços é forçar recordações, é tentar compreender traços inexplicáveis. É soletrar, no escuro, um nome que soa alto, sem pressa e melódico. Dentro do sonho do desenhista, ela é a imagem teimosa; não o corpo, a fotografia. A fotografia que traga o lápis e o seu companheiro para dentro de um metrô.
O desenhista parou de se sentir inteiro, ele só queria ser o lápis, tomar a força e a capacidade de um mero lápis. O lápis que demarca cada pedaço de um corpo que nasce no papel, aquele corpo. O lápis que cria, modifica e calcula tudo da maneira mais verossímil, tentando dar vida a uma fotografia, como se de uma hora pra outra, em dois segundos, a imagem pudesse ser mais que o seu simples desenho, fosse corpo real.
Em um cachecol, o seu querer. De olhos distantes, o rosto parece se chegar, o corpo se aproxima trazendo roupas, sorrisos e olhares de muitos lugares e momentos. De lugares onde só a lembrança consegue chegar. Tinha olhos brilhosos, o bem-estar momentâneo era visível.
Que outro desenhista terá dado vida, em traços, a olhos tão marcantes? Ele já havia desenhado e apagado, desenhado-apagado, desenhado-apagado, sem conseguir achar o olhar exato. O olhar do último adeus. A boca também era um grande desafio. Quando ele conseguiria desenhar aquele sorriso que ele guardou na memória, aquele visto de canto de olho, em meio a areia e diante do mar? Sem terminar, ele sabia: nunca conseguiria. Era só mais um desenhista frustrado querendo que sua criação tivesse vida própria, mas junto da sua. Queria dar sua própria vida àquele retrato.
Do mar que ele cantara, da outra que ele tocara, via trechos de inúmeras na boca de uma. Traços fiéis de mulher que ficou. E novamente, com o lápis em outros méritos, desenhava metáforas. Metáforas de um ser. Metáforas de um querer, de uma visão; de um corpo... daquele corpo.



E quase sempre ela era tão forte, mas tão forte que ele nunca notava o momento exato em que ela saía da cabeça e entrava na música, na pintura (como aquele amigo pintor), no desenho, no dia, no almoço, na leitura, na praia, na paisagem, nas lágrimas, na lembrança, no lírio, (...), na lua...