sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Divagações de um desenhista.



Brilho de antes, fogueira que consome o eterno. Esplêndidos trechos de um testamento de nada. Fagulhas desesperadas de uma vontade plangente. Entre o ranger e o sorriso, o espetáculo de uma boca límpida, esculpida em êxtase extremo. De cabelos negros, cor-de-turmalina, de risco em risco um segredo mortal. Na ponta de um lápis, no rabiscar de poucas linhas, uma imagem acalenta, suplanta e redime toda a dor de uma alma marcada. O dono do lápis, em transe, pára diante da beleza. Levanta, abandona o lápis, abandona a inspiração. Entre um apagar e outro, desenha memórias e não fotografia. Dispensa detalhes, fecha os olhos e imagina as marcas que delimitam a boca, as sombras de um rosto expressivo.
A cor morena que abarca a pele que seus dedos tocaram e por onde os seus olhos puderam passear. Olhar a foto é sentir o cheiro do perfume que ficou, é sentir os pêlos de um corpo com poucos deles.
Desenhar os traços é forçar recordações, é tentar compreender traços inexplicáveis. É soletrar, no escuro, um nome que soa alto, sem pressa e melódico. Dentro do sonho do desenhista, ela é a imagem teimosa; não o corpo, a fotografia. A fotografia que traga o lápis e o seu companheiro para dentro de um metrô.
O desenhista parou de se sentir inteiro, ele só queria ser o lápis, tomar a força e a capacidade de um mero lápis. O lápis que demarca cada pedaço de um corpo que nasce no papel, aquele corpo. O lápis que cria, modifica e calcula tudo da maneira mais verossímil, tentando dar vida a uma fotografia, como se de uma hora pra outra, em dois segundos, a imagem pudesse ser mais que o seu simples desenho, fosse corpo real.
Em um cachecol, o seu querer. De olhos distantes, o rosto parece se chegar, o corpo se aproxima trazendo roupas, sorrisos e olhares de muitos lugares e momentos. De lugares onde só a lembrança consegue chegar. Tinha olhos brilhosos, o bem-estar momentâneo era visível.
Que outro desenhista terá dado vida, em traços, a olhos tão marcantes? Ele já havia desenhado e apagado, desenhado-apagado, desenhado-apagado, sem conseguir achar o olhar exato. O olhar do último adeus. A boca também era um grande desafio. Quando ele conseguiria desenhar aquele sorriso que ele guardou na memória, aquele visto de canto de olho, em meio a areia e diante do mar? Sem terminar, ele sabia: nunca conseguiria. Era só mais um desenhista frustrado querendo que sua criação tivesse vida própria, mas junto da sua. Queria dar sua própria vida àquele retrato.
Do mar que ele cantara, da outra que ele tocara, via trechos de inúmeras na boca de uma. Traços fiéis de mulher que ficou. E novamente, com o lápis em outros méritos, desenhava metáforas. Metáforas de um ser. Metáforas de um querer, de uma visão; de um corpo... daquele corpo.



E quase sempre ela era tão forte, mas tão forte que ele nunca notava o momento exato em que ela saía da cabeça e entrava na música, na pintura (como aquele amigo pintor), no desenho, no dia, no almoço, na leitura, na praia, na paisagem, nas lágrimas, na lembrança, no lírio, (...), na lua...