sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Desapego.


Quem vive o medo de ir embora fica sempre parado onde a morte das coisas é acontecimento cotidiano, onde as cores são simples artifícios de atração dos pincéis. O desapego é um passo além do medo, um passo aquém da novidade. Só sabe o quanto é difícil quem não joga fora as cartas de amor – aquelas ridículas – ou os versos escritos no guardanapo, em plena mesa de bar.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Outubro



Não sei bem o que outubro carrega. Sentir o cheiro não é ver os fatos. Não tem a ver com fé, mas com esperança. Ninguém sabe o que vai estar na próxima esquina nem quais são os olhos que chegarão para mostrar o caminho. A urgência de recomeçar cresceu durante as noites escuras de um setembro que correu, enquanto a vida inteira se recuperava de um agosto furado.Lágrimas que se tornaram tatuagens. Dores que doerão para sempre: tudo o que outubro já trouxe - em um dia chamado três - e ainda não levou por inteiro. Porque as feridas doem mais nos dias de chuva, como diz Caio. Doem como corte de papel entre os dedos, eu diria.

domingo, 8 de agosto de 2010

Palavras que pulsam cores.

Vermelho: da cor da noite quando sobe. Ou da saudade, quando ela aperta: Branco. Não há nada mais barulhento que o relógio que parou: Cinza. O espelho que reflete o Preto do som límpido de ontem quebrou. Azuis eram os cacos que, brilhando, cegavam as retinas Verdes da espera. O cheiro das notas que saíam do violão largado no canto ensurdecia em seu incomensurável...

...Silêncio!

Entre os relógios que batem e os vasos coladoridos, repousam leves, lépidas, elas: as cores que saem da boca amarga do tempo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Desejos


... a gente espera até cansar, até a última janela se fechar, eu prometo. Porque de alguma forma a gente sabia que desistir não era nobre, tinha escrito no livro que tava em cima da cama. Uma já nem sabia ver as horas, não sabia mais do vento, nem do cheiro da chuva quando cai sem avisar: terra molhada. A outra só sabia que o tempo corria num tic-tac sem fim. Não tinham mais histórias, não tinham mais medos, nem segredos que pudessem guardar na caixinha fechada com os sete cadeados.
A pulseira laranja estendida no pulso há meses e meses arrebentou. E agora, onde posso ir para ver os desejos se realizarem?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

"Que seja doce!"

Sorrisos guardados na mala: era o que ela carregava. A ponta do nariz vermelha, a pele branca e macia e as mãos delicadas que pareciam segurar as promessas dos melhores sonhos. Enquanto ela sorria, brincava com as palavras que saíam leves da sua boca e olhava em volta com seus olhos verde-campo.
Tudo parecia programado: o relógio que parou de funcionar, B.B. King (Stand by me) tocando no som e a janela aberta para que as estrelas espiassem a beleza que estava escondida atrás da camisola de seda – que eu prefiro chamar de cortina.
Dobrava as pernas, com a cabeça encostada no meu ombro e dizia baixinho, sem perceber que as palavras saíam: “Quando a noite chegar e a terra ficar escura e o luar for a única luz que se vê, eu não vou ter medo, enquanto você ficar comigo.”
Ainda que a noite tenha caído, ainda que a lua seja a única luz que eu consigo ver, eu não tenho medo porque você esteve comigo e devolveu a luz que faltava pros meus sorrisos e é vestindo o meu melhor deles que sinto o cheiro da saudade se aproximando e trazendo consigo promessa de dias melhores, mais coloridos e doces.

*”Mas agora você vai embora. Quanto tempo será que demora um mês pra passar? (Pra criança que não sabe contar, vai levar um tempão!) Mas daqui a um mês, quando você voltar, a lua vai tá cheia e no mesmo lugar.” (Biquini Cavadão)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Para uma bela flor de pétalas urticantes

As suas palavras, hoje ásperas, me encheram de dor ao entrar por um ouvido e tentar sair pelo outro. Você me fez reverter o que deveria ter deixado intacto. Os seus caminhos foram de encontro às suas palavras e a incoerência dos seus atos tornou-se gritante agora. Ouve-se ao longe um cantar vago de passado; passado frio e morto – como EU a seu querer. Poema de um pseudo-amor que ninguém viveu, rabiscado M-E-N-T-I-R-A com caneta bic azul.
Mantenho-me fora, onde você gostaria de estar. Onde os seus pés não ousaram pisar, ou pisaram e não suportaram o jardim de flores carnívoras do esquecimento, do podre pesar dos seus gestos discretos, auto-Vitimados.
As coisas pobres correm, fluem, e você destrói aquilo que pediu para deixar firme. Os valores gritados. Não vividos.
Deixe, eu repito, deixe que difamem a mim, enquanto você ouve com ouvidos de farpas. Ouvido disposto a aceitar qualquer coisa que me torne intangível: o seu.
Nada seu ficou. Só o fato, do qual ninguém duvida. Nós ruímos, quebramos, cortamos os leves ideais de qualquer-coisa ou porra-nenhuma, tanto faz. Você moldou um velho e desbotado relicário.
Correndo de um ouvido a outro, você escolheu transformar-se em palavras cortantes que quebram os seus frágeis valores de vidro. De vidro trincado.
Viva os seus espinhos, bela flor de pétalas urticantes.
"Ainda que esta seja a última dor que ela me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo." (Pablo Neruda)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Na pele


Era só uma das minhas muitas construções. Uma personagem construída em cima da minha visão de realidade, do meu querer. Só mais uma representação.
Hoje eu sei que personagens não existem fora das palavras. São seres que nunca sairão da tinta no papel... ou na pele.

sábado, 17 de abril de 2010

Me dói o tempo parado.

Não pise na grama. Ou pise, caso seus pés sintam vontade.

Eu tinha tanta coisa pra te dizer. Tudo o que você precisava saber, precisava entender. Entre coisas supérfluas como a margarina que teima em sujar o chão logo cedo. Porque quem não tem sorte é assim, dizia papai: “o pão cairá sempre com a margarina pra baixo”. Das tantas que eu andei, tentando encontrar um último sorriso, a última peça do quebra-cabeça que estava perdida entre os muitos cd’s que tomavam conta da nossa cama, do nosso colchão.
Você precisa saber de mim, de nós: do que nos restou.
Eu sinto saudades.
Dessas que não morrem dentro de um abraço.
E entre coisas que eu sei, e que eu também não sei mais, me dói o tempo parado.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Entre livros e pedras.

Ela lia. E tirava, prazerosamente, o resto de esmalte das unhas: camadas e camadas que ficavam na pele, grudadas no sorriso dela. Ela respirava lentamente, como se quisesse, pelo ar, devorar todas as palavras que enchiam o livro em um redemoinho sem fim. Ela era fato, enfim!

No outro, o sabor de cada gesto, o prazer da cena!


Depois de tanto tempo, o frio persistente na barriga transformou-se em algo que em alguns momentos eu chamava de qualquer coisa grande que preenchia todos os espaços vazios e, em outros: Amor.
Aquele que nasceu entre as pedras.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Cartas Clandestinas


Não há culpados ao final de tudo. Ou há. Às vezes eu consigo apontá-los. Outras vezes eu os menosprezo. Assim: dizendo que eles não existem nem como donos das suas muitas culpas. O que dói, de fato, é que os culpados carregaram de nosso reino as simbologias. Na verdade eles carregaram o reino inteiro. Restou uma certeza, profunda, de que carregaram máscaras de quem posava de boas pessoas e bom-senso de quem gritava que tinha em estoque.

É assim: essas dores ficam, corroem, mas algumas coisas vomitam todo o sentido do que foi o dia inteiro. Vomitam mesmo e dizem que se vomitou é porque não foi bem recebido internamente. Coisas que irritam! Eu olho, não mais sigo, pouco menos vejo dormir, mas olho; e tudo é confuso: ignoro porque me incomoda, dou atenção porque amo.

Não sei o porquê que merecimento é coisa que eu sempre soube julgar. Ah, soube! Hoje eu me perdi. Sabe a linha do trem, ou a linha dos saberes? Os trilhos quebraram-se, restaram os saberes corrosivos, explosivos, oxidantes. Amor de ferro corroído aos poucos. Como? Sabe-se lá como coisas substanciais morrem. Mas morrem (assassinadas, na maioria das vezes).

De sorriso e luz, ficam as dores. Ah, luzes não se apagam porque querem, tem sempre um botãozinho que alguém apertou. Luzes não se ligam sozinhas e, se não forem cuidadas regularmente, elas queimam.

O que dói é a vontade de nem ser real. “É a distância na mesa entre os farelos de pão. É o vento levando das mãos a farinha de trigo.” O pão inteiro, já pronto. “É o grão que o tempo roubou da colheita, deixando secar sob o sol.” Até queimar brutalmente. “São as folhas secas enfeitando a nossa mesa”, que eu sentei sozinha. “Sou eu sentada num canto, e ele no outro da plantação.” “Sobretudo, são os campos dourados que me trazem lembranças antigas, lembranças de planetas, vulcões e de pássaros.”

“Das quatro horas que nunca chegam quando amanhece a quarta-feira.” Quando amanhece a quarta-feira, nada chega. “Do invisível entre a minha cadeira e a tua”. Da cor dos teus cabelos negros, cor de turmalina. E dos teus olhos amendoados. “E foi por eles que um dia EU abri as janelas do meu quarto, e essas cartas clandestinas comecei a te escrever.”



Alguns trechos retirados do Jornal das pequenas coisas, da Rita Apoena.
Vários recortes de muitos textos meus.