sábado, 23 de abril de 2011

Nós


O que eu sinto é madeira viva, são destroços de mim dentro de mim, são fagulhas de dores recicladas. O que tu criaste em mim não é metáfora, é hipérbole. De todos os porquês, tu me és o sustento, a base que me põe de pé. Quando, como em ressurreição, as minhas mãos tocaram a tua pele, dentro de mim borboletas fizeram morada. Mas sim, borboletas ainda me assustam. Eu ainda te faria música da gente, versos de nós. Não, nunca separadamente, nós somos grandes demais para cabermos em outro pronome que não seja esse: NÓS.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ficção.



Quando ela era uma estrela, eu era só mais um grão de areia engolido por um mundão de águas. Depois eu era um rei e ela era uma simples bailarina. Quando nos encontramos, éramos dois corações limpos. Éramos! Aí vieram os tempos ruins, a lama invadiu os recônditos do nosso lar e, enquanto toda a sujeira - que ela deixou entrar - inundava o meu coração, ela fumava um cigarro e tratava de se limpar. Éramos, então, dois corações sujos.
À noite, enquanto eu tocava um violão, ela escrevia textos em que as personagens não tinham nomes. Quando amanhecia, ela era uma princesa e eu um simples mordomo para servir-lhe. Antes de anoitecer novamente, eu era só mais um pedaço de comida que alimentava o monstro que ela criava chamado metáfora.
Quando o humor chegava perto dela, eu era só aquele brinquedinho de marfim que, mesmo jogado contra a parede, não quebrava e, acima de tudo, sempre parava diante dos pés dela. Ela sorria, acendia outro cigarro e anotava em um bloquinho que a profissão ensinou-lhe a usar.
Ela saía e sempre deixava um bilhete colado – pelo nosso ímã – na geladeira. Sem hora, sem data, ela voltava bêbada e cansada para os braços do enfermeiro que eu me tornava.
Eu era um padre. Um padre no confessionário quando ela contava que, depois de tanto álcool, havia sido carinho para outros braços. E eu, dentro do papel que me cabia, distribuía perdões, preparava o banho quente e o chocolate que ela tanto gostava, enquanto ela apenas anotava. No roteiro que ela escrevia, as lágrimas não me cabiam.
E sempre que cansava de escrever o romance que ela criou, do qual eu era só mais uma personagem, ela ia embora. Arrependida, depois, voltava. Ninguém era tão mais metafórico e plural que eu.
Ela era exatamente o que Chico cantou em "Ela faz cinema", eu era o que Alcione gritava em "Nem morta". Éramos música, exatamente essas.
Quando o faz de conta terminou, eu pude ler todos os romances, contos, crônicas e poemas. Eu não era a única personagem. E fugindo o roteiro dela, pedi as contas, rasguei o script, os figurinos e todo o cenário. Ela me deixou um bilhete que dizia: “Você foi apenas mais um entre tantos e só serviu para inspirar algumas palavras ruins que davam vida aos meus textos. Você foi mais uma crônica furada.”
Ela era uma risada, eu era uma lágrima. Ela era um novo amor, eu era a leitura das crônicas que ela havia deixado. Ela inventava histórias, eu as vivia.
Quando ela foi embora, esqueceu a caneta e o bloquinho. Eu passei a usá-los e, de repente, havia me tornado tão mais ela que qualquer outra coisa. Criei meus romances, minhas personagens que eram apenas para alimentar o meu filhote de mostro que eu, em sua homenagem, havia chamado de metáfora-sinestésica. Eu era, agora, tudo que eu recriminava.
Ela hoje era simplesmente o que eu sempre fui. A angústia que eu dava vida, ela comia todos os dias a fim de se lembrar. E nada mais era texto, nada era crônica.
Quando eu sou uma certeza, ela é só uma interrogação, um pedido de socorro. Felizmente hoje eu não sou mais personagem, não posso mais servi-la. Hoje eu sou a caneta. Hoje eu sou o meu próprio romance, onde todas as personagens têm identidade. Hoje somos fim e ela é só mais uma personagem da sua própria ficção.

Ao som de “João e Maria”, de Chico Buarque.