domingo, 4 de março de 2012

"Oculta e bela"

“Mais se proíbe Aquela
que é razão de viver

mais Ela, oculta e bela,
nos faz amanhecer...”

Bandeira Tribuzi

Eu sou incompreendida mesmo, quem disse que, enquanto mulher, eu quero que alguém me entenda?
Eu posso ser aquela puta que te pariu ou a puta que alimenta a tua carne maldita e bendita.
Quando cai a madrugada, eu posso te satisfazer em tuas mais loucas fantasias e te fazer meu macho, capacho, ainda que tu tenhas pele de tigresa e seja Outra.
Eu amo a mim, amo a ele, amo a ela e sou castigada todos os dias com chicotes de desamor, eu sou a bruxa queimada viva na fogueira do pudor. O meu despudor é alimento pra minha alma, o meu pudor é algema de aço.
Quem quiser me queimar que queime. Em fogo, mas por minhas mãos, foi aquele sutiã também.
As minhas cinzas deixarão marcas que contaminarão outras iguais a mim: a que lava, a que veste o terno da desigualdade, a que apanha, a musa e a puta, qualquer uma que sangra pra gerar leite.
Para que sejas como eu, como nós, necessitarás dos meus gritos ao parir o próximo menino que vai me bater ou me amar ternamente ou a outra que, mergulhada nessa cultura escrota, nas vestes do que me come e devora, me agredirá em versos ou em surras.
Quanto custa a tua vergonha, o teu pudor, o teu amor? Eu compro, afinal eu também sou Aurélia Camargo, a Senhora de José, que poderia ser qualquer um, mas é Alencar. Ou quem sabe a puta, Lúcia, ou a apaixonante Capitu com seus olhos de ressaca e fulgor. Ou em épocas de puro machismo me vestir de homem, tal qual Milla, para levar o meu talento ao mundo, ou aquela cujo amor me foi proibido, narrada e deixada no mundo por outro José, aquele Tribuzi.
Como o Jorge que é Amado foi pelo meu cheiro, pelos meus olhos e minha cor, o cheiro de cravo, a cor de canela, eu também saio às noites para amar Gabriela, que é outra como eu.
É dentro da bacia da vida que eu a vejo correr, é mergulhada no puro sangue do meu sexo que eu lavo a alma, a carne. É assim que eu vejo o outro sexo pulsar. É no tambor que tu te feres para que o vento levante a minha saia é que morre a minha vergonha.
Não esquece: eu fui EVA, fui Tereza, fui Amélia, fui Domingas, fui Maria da Penha, fui Teté; sou a cachorra, eu sou Emma Bovary (como gritou Flaubert) sou a mãe e a filha, sou a cura e a ferida escancarada, sou aquela, sou Afrodite, acima de tudo isso eu sou o que traz a vida e por ela dou a minha. Eu sou mulher.


“(...) Pois o que é belo e puro,
seja sonho ou mulher,
está mais alto que o muro
que se lhes possa erguer.”

Bandeira Tribuzi



4 comentários:

Rick disse...

E eu, digo o que... Que achei forte, decidido, verdadeiro e lindo.
Uma maneira diferente, tipo, sem mais porquês.
Muito belo texto.
Bjws Moça.

Vi seu perfil. Também moro aqui, no maranhão.rs.
Bjws,

Mai Amorim disse...

Mila, eu andava sumida do mundo dos blogs. Reparei agora quanta saudade e sede tinha da tua escrita! Sou tua fã.

Anônimo disse...

Isto é sobre outro texto, talvez tu saibas e entendas qual é. Teu problema é que amas demais, mas amas errado. Tu não sabes escolher, cospe nos que te devolvem em sentimento e acolhe com carinho os que te enganam. Teu amor é inspiração pra textos e veneno pra alma. Não se pode ter as duas coisas, temo que já saibas disso. O que escolher?

camila chaves disse...

Há quem escreva, quem sinta, quem seja a mulher de modo doce, de modo meigo. E há quem descreva, quem sinta, quem seja a mulher de modo intenso, forte, como diz esse tão bonito texto teu. As duas mulheres, ou bem mais que duas, as múltiplas, coexistem. E talvez seja isso o bem melhor de tudo.

Como é bom te ler. *(: